Mísseis balísticos transmitidos ao vivo nos telejornais, deslocamentos massivos de refugiados nas telas do celular, apropriação ilegal de territórios explicada em mapas interativos, choques econômicos e estratégias do pós-colonialismo esmiuçados em podcasts. Mesmo antes de Trump voltar ao poder nos Estados Unidos, o noticiário internacional já havia ocupado um espaço expressivo na imprensa brasileira. Poderia ser um momento de inflexão para valorizar a importância dos correspondentes internacionais. Mas uma pista empírica aponta para resultados não tão animadores.
As condições laborais dos jornalistas que migraram para o exterior pioraram. Ganha-se menos, trabalha-se mais, há poucos contratos fixos com empresas de mídia, e a maioria reconhece que esse contexto degradante influencia a qualidade do que é publicado.
Essas são algumas das conclusões da minha pesquisa de pós-doutoramento, realizada no Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Numa tese defendida por Luciane Agnez em 2014 na Universidade de Brasília, por exemplo, estava claro que a tecnologia havia barateado a logística envolvida em uma cobertura internacional e, ao mesmo tempo, as mesmas facilidades reduziram o tempo necessário para avaliar a qualidade das informações. Os entrevistados mencionavam que as jornadas de trabalho eram frequentemente extenuantes e que a dinâmica de produção exigia renúncia à vida pessoal.
Em outros webinários, debates públicos e entrevistas com ex-correspondentes, a dificuldade financeira dos brasileiros também já havia sido exposta. De certa forma, todos esses depoimentos desmontam a narrativa glamurizada de um posto historicamente associado à ascensão profissional.
Nesse novo estudo, ainda em fase de conclusão, a granulação de dados permitiu inferir que a precarização entre correspondentes, especialmente entre freelancers, avançou.
Adoecimento e desistência
Não só a drenagem de empregos se consolidou no mercado local de jornalistas no Brasil e nos Estados Unidos, mas as entrevistas com os correspondentes também descrevem um cenário de adoecimento físico e mental, renda abaixo do nível de sobrevivência digna e retração salarial, com redução de 30% a 70%, em comparação com o início dos anos 2000.
Um dos repórteres disse que ficava de pé das sete da manhã à meia-noite para atender a quatro tipos de veículos no Brasil. Quando adoeceu, achou menos estressante e mais viável trabalhar como passeador de cachorros. Outros compartilharam sofrimento psíquico constante: cobranças para estar disponível em tempo integral, sem qualquer garantia de benefícios ou de horas extras. Uma ex-correspondente afirmou que se sentia como uma entregadora de comida por aplicativos; o cliente que paga exige pressa, mas se isenta de cumprir as obrigações trabalhistas.
Por uma questão de coerência metodológica, foi aplicado também um questionário online (survey) que obteve 41 respostas autodeclaratórias de correspondentes. A enquete mostrou que mais de 80% desses trabalhadores e trabalhadoras se sentem precarizados (43,9%) ou parcialmente precarizados (41,5%).
É importante frisar que essas 41 respostas não representam o número de jornalistas brasileiros no exterior. Também não se aproximam de um censo em andamento para identificar quem são repórteres, colunistas, produtores de televisão, editores e eventuais colaboradores que estejam atualmente fora do Brasil. Até o momento, foram catalogados 130 nomes na planilha. Até mesmo essa lista pode ser imprecisa na tentativa de fazer uma cartografia exata dos correspondentes, um desafio enfrentado por outros pesquisadores internacionais que desenvolvem análises sobre precarização em funções de prestígio.
Multifuncionalidade, juvenilização e baixa remuneração
A anonimização, porém, revelou dados alarmantes e muito sensíveis: um terço ganha até US$ 2000, o que nos Estados Unidos e na Europa é um valor incompatível com as despesas. Além da renda inadequada, a instabilidade de ganhos e a obrigação de ser uma pessoa “multifuncional” foram apontadas como as principais evidências de precarização.
O desprestígio do correspondente não é exclusivo do Brasil. O Washington Post eliminou todos os postos de trabalho no Oriente Médio e a dispensa incluiu repórteres que estavam escapando de bombas. Em 2007, o Boston Globe já tinha fechado as sucursais em Jerusalém, Bogotá e Berlim. Em 2023, quando explodiu o conflito em Gaza, o próprio Post mostrou que os grandes veículos dos Estados Unidos enfrentavam dificuldades devido ao esvaziamento de seus escritórios no exterior. Havia, claro, exceções: a CNN enviou reforços e 35 pessoas foram mobilizadas em Israel, incluindo oito repórteres.
São números bem distantes do atual momento da imprensa brasileira: dos quatro maiores jornais (Folha, Globo, Valor e Estadão), apenas um deles ainda mantém um correspondente contratado em Washington. Em algumas emissoras, há registro de equipes fixas totalmente dizimadas em Jerusalém ou excessivamente juvenilizadas.
O resultado expõe o esvaziamento de uma das posições mais cobiçadas das redações: mais do que nunca, é necessário retratar a experiência cotidiana sem retoques e sob a perspectiva do Sul Global. E inspira ações urgentes, sobretudo à luz das novas ameaças de desemprego decorrentes da inteligência artificial generativa. Tanto para quem está no Brasil quanto para quem fez as malas para arriscar a vida em outro país, a saída pode começar pelo que faremos diante desse cenário desolador. “Enfrentar o aprofundamento da precarização demanda a ampla mobilização desses profissionais em defesa da atividade e do produto jornalístico”, sugerem Janara Nicoletti e Roseli Figaro.![]()
Maria Esperidião, Pós-doutoranda em comunicação, Universidade de São Paulo (USP)
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