Quando a Escuridão Cobra o Que Foi Prometido
Quando a luz se apaga…
nem tudo desaparece.
Algumas almas permanecem.
Observando.
Esperando.
Você entrou em…
Almas na Escuridão.......
Durante décadas, Damião rodou o Brasil e alguns países da América Latina levando alegria por onde passava. Sempre com o sorriso largo pintado no rosto, ele fazia crianças rirem… e adultos esquecerem, ainda que por alguns minutos, o peso da própria vida.
Debaixo da lona gasta do circo, ele era um palhaço admirado.
Fora dela… apenas um homem cansado.
Com o tempo, os aplausos ficaram mais fracos.
As arquibancadas, mais vazias.
E o riso… quando vinha… parecia forçado.
Era no silêncio do camarim que tudo começava.
Sozinho, diante do espelho manchado de maquiagem antiga, Damião sentia algo diferente. Uma presença. Não era uma voz que vinha de fora… mas de dentro. Um sussurro baixo, persistente, paciente.
“Eu posso te dar felicidade…”
Ele tentou ignorar. Rezou. Bebeu. Trabalhou mais. Mas quanto mais o mundo o esquecia, mais aquela presença crescia. Alimentava-se da frustração, da solidão… do medo de não ser mais amado.
Até a noite em que ela falou claramente.
“Mas você terá que se entregar a mim.”
Damião aceitou.
E, por um tempo, tudo mudou.
O riso voltou a ser verdadeiro.
As crianças o observavam com fascínio.
Os adultos sentiam um desconforto estranho ao vê-lo no picadeiro — algo entre encanto e medo.
Ele estava melhor do que nunca.
Mais intenso.
Mais vivo.
Mas toda felicidade cobrada pela escuridão… tem um preço.
Antes de desaparecer, a presença deixou um aviso.
“Quando eu chamar por você… não fuja.”
O chamado veio numa madrugada silenciosa.
Sem sonhos.
Sem aviso.
Um único nome ecoou dentro de sua mente, como um sino fúnebre:
Damião.
E ele fugiu.
Abandonou o circo.
Deixou o figurino.
Pegou estradas de terra, cidades esquecidas, vilarejos pequenos do Norte e do Nordeste. Se apresentava em praças vazias, festas improvisadas, escolas pobres.
Tentava se esconder.
Mas a escuridão… não esquece pactos.
Foi em uma dessas cidades, às margens de um rio escuro e lento, que ele conheceu uma mulher. Linda. Doce. De olhar profundo e voz tranquila. Ela não se assustava com seus silêncios, nem com os pesadelos, nem com as noites em que ele acordava suando… ouvindo seu nome sendo chamado ao longe.
Ela dizia amá-lo.
E Damião… acreditou.
A cabana onde ela morava ficava afastada da cidade, cercada por mata fechada e pelo som constante da água do rio. Ali, pela primeira vez em anos, ele sentiu algo parecido com paz.
Até a noite em que o rio subiu…
sem chuva.
Até a noite em que o reflexo dela na água… não acompanhou seus movimentos.
Ela não gritou.
Não correu.
A transformação foi lenta.
O sorriso se desfazendo como tinta molhada.
O rosto perdendo forma.
A voz se multiplicando, ecoando pelas paredes da cabana.
O ar cheirava a terra molhada… e ferro.
“Eu chamei.”
Damião tentou correr.
Mas não havia para onde ir.
A escuridão abandonou a forma de mulher e revelou aquilo que sempre esteve dentro dele. Aquilo que se alimentou de sua dor… de sua vaidade… do seu desejo desesperado de ser amado outra vez.
Mãos que não eram mãos o agarraram.
O arrastaram até o rio.
Enquanto a água engolia seus gritos… o nariz vermelho flutuava na superfície, inútil, sem graça… vazio.
Na manhã seguinte, encontraram apenas marcas na lama.
Nenhum corpo.
Nenhuma explicação.
Mas moradores de cidades pequenas juram…
Que, às vezes, em festas simples ou praças esquecidas, surge um palhaço desconhecido. O sorriso é largo demais. O riso… dura tempo demais.
E quando as crianças perguntam seu nome…
ele demora a responder.
Porque quando a escuridão chama…
ninguém foge duas vezes.
....
“Se você ouviu algo… não olhe para trás.”