Preso há quase três décadas, líder do Comando Vermelho mantém influência sobre a facção, enquanto sua família — incluindo o rapper Oruam — enfrenta novos mandados de prisão e denúncias por lavagem de dinheiro
Márcio dos Santos Nepomuceno, vulgo "Marcinho VP", é apontado como um dos principais líderes do Comando Vermelho (CV), a maior facção criminosa do Rio de Janeiro. Preso desde agosto de 1996, o traficante de 54 anos cumpre pena em presídio federal de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, mas as investigações policiais indicam que ele continua exercendo controle sobre a organização criminosa de dentro das grades. A história de Marcinho VP se entrelaça com a ascensão de seu filho, o rapper Oruam, e com uma família que, segundo as autoridades, usufrui dos recursos ilícitos do tráfico de drogas.
Origens e Ascensão no Crime
Marcinho VP nasceu em 12 de fevereiro de 1970 no bairro de Vigário Geral, na zona Norte do Rio de Janeiro. Ainda bebê, mudou-se para São João de Meriti, na Baixada Fluminense, onde cresceu em um ambiente marcado pela violência: seu pai foi assassinado quando ele era criança, e sua mãe foi presa em quatro ocasiões diferentes. Marcinho e seus três irmãos foram criados por uma tia.
De acordo com sua autobiografia, "O Direito Penal do Inimigo: Verdades e Posições", publicada em 2017, Marcinho começou a praticar assaltos aos 13 anos de idade, com o objetivo de conseguir dinheiro para comprar roupas de marca. Dos roubos, migrou para o comércio de drogas e ascendeu rapidamente na hierarquia do Comando Vermelho, tornando-se o líder do tráfico no Complexo do Alemão, um dos principais redutos da facção na capital fluminense.
O apelido "VP" teria surgido no início de sua carreira no tráfico, como sigla para "vapor", termo usado para designar pequenos vendedores de drogas. Com o tempo, porém, o significado evoluiu junto com sua posição na organização criminosa.
A Prisão e a Condenação
A prisão de Marcinho VP ocorreu em agosto de 1996, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A operação foi conduzida pelo comissário de polícia José Carlos Pereira Guimarães, do Grupo Astra da Polícia Civil do Rio, que passou quatro meses investigando o paradeiro do traficante. Na época, a ação foi tão sigilosa que o então governador do Rio, Marcello Alencar, chegou a pedir desculpas ao governador gaúcho Antônio Britto por não ter informado as autoridades locais sobre a operação.
"Eu sou acusado de ser chefe do tráfico desde quando estava na rua, desde meus 17 anos de idade. Eu sou acusado, mas nunca fui traficante na vida, vivia de assalto."
— Marcinho VP, em entrevista à Record TV
Marcinho foi condenado a 36 anos de prisão por matar e esquartejar dois traficantes rivais. Além disso, responde por outros crimes, incluindo homicídio qualificado e formação de quadrilha. Apesar das acusações, ele sempre negou envolvimento com o tráfico de drogas, alegando ter atuado apenas como assaltante de bancos e carros-fortes.
Vida na Prisão e Influência no Comando Vermelho
Mesmo encarcerado, as autoridades policiais e judiciais afirmam que Marcinho VP nunca deixou de exercer liderança no Comando Vermelho. Em 2003, enquanto estava detido na penitenciária Doutor Serrano Neves (Bangu 3), ele foi acusado de ordenar o assassinato de Márcio Amaro de Oliveira, conhecido como "Marcinho VP de Dona Marta", um traficante do CV que teria irritado a facção ao revelar detalhes do esquema de tráfico em entrevistas ao jornalista Caco Barcellos. Dias depois das supostas ameaças, o corpo de Amaro foi encontrado em uma lixeira da galeria A3 do presídio, com sinais de asfixia.
As acusações de que continuava envolvido com o crime organizado motivaram sua transferência para o sistema penitenciário federal. Em 2007, foi levado para o presídio federal de Catanduva, no Paraná, e posteriormente transferido para o de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Atualmente, cumpre pena no presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
No sistema federal, os detentes ficam em celas individuais e as visitas de familiares ocorrem sem contato físico, separados por vidro e por meio de interfones. Marcinho VP tem criticado as condições, argumentando que a penitenciária federal tira do preso o maior estímulo para a reintegração social: a família.
"Todas as vezes que eles têm que se deslocar milhares de quilômetros para poderem me visitar, eles perdem dois dias de suas atividades laborativas e educacionais. Chega a ser uma covardia com a família do preso."
— Marcinho VP, sobre as visitas em presídio federal
A Família: Márcia Gama, Oruam e os Laços com a Política
Marcinho VP é casado com Márcia Gama Nepomuceno, com quem tem seis filhos e é avô de dois netos. Um dos filhos do casal é Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, mais conhecido como Oruam, um dos principais nomes do rap e trap nacional.
Márcia Gama é descrita pela defesa como servidora concursada, "mulher batalhadora" e mãe de cinco filhos, sem antecedentes criminais. No entanto, a Polícia Civil do Rio de Janeiro a considera um dos principais elos de comunicação da facção entre o sistema prisional e os integrantes que estão fora dos presídios, sendo responsável por intermediar os interesses da organização.
Oruam, nascido em 1º de março de 2000, surgiu na cena musical em 2022 com a música "Invejoso" e rapidamente conquistou milhões de ouvintes. Criado na Cidade de Deus e no Complexo do Alemão, o rapper carrega em suas letras e em sua imagem pública referências ao crime e à figura do pai. Em março de 2024, durante apresentação no Lollapalooza, Oruam usou uma camiseta com a foto de Marcinho VP e a palavra "liberdade", gesto que gerou forte repercussão.
A família também possui laços com a política. Cristiano Santos Hermogenes, irmão de Marcinho VP, foi nomeado presidente do diretório municipal do PSDB em Belford Roxo em janeiro de 2026, mas foi afastado do cargo oito dias depois, após o presidente estadual da legenda, deputado federal Luciano Vieira, tomar conhecimento do parentesco. Cristiano já havia sido preso em 2006 sob suspeita de lavagem de dinheiro e associação com o tráfico de drogas.
Operação de 2026: Novos Mandados e Denúncias
No dia 29 de abril de 2026, a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou uma operação contra o braço financeiro do Comando Vermelho, tendo Marcinho VP, sua esposa Márcia Gama e o filho Oruam como alvos principais. A ação, batizada de "Operação Contenção", visava desarticular a estrutura financeira, logística e operacional da facção.
Foram cumpridos 12 mandados de prisão preventiva e diversos mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos envolvidos em Jacarepaguá e na Barra da Tijuca. Oruam, Márcia Gama e o irmão Lucca Nepomuceno não foram localizados e são considerados foragidos. Um homem identificado como Carlos Alexandre Martins da Silva foi preso durante as diligências e seria, segundo a polícia, o operador financeiro de Márcia Gama.
As investigações identificaram diálogos entre Carlos Costa Neves, conhecido como "Gardenal" e apontado como uma das principais lideranças do CV, e um miliciano. As conversas reforçam a influência de Marcinho VP como liderança central da facção, mesmo após anos preso.
Em 1º de maio de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Marcinho VP, Márcia Gama, Oruam e outras nove pessoas por lavagem de dinheiro e organização criminosa. A denúncia aponta que os valores recolhidos pelo tráfico de drogas eram utilizados por operadores financeiros e contas de terceiros para ocultar patrimônio e adquirir bens.
A delegada responsável pela investigação afirmou que a família de Marcinho VP usufrui do dinheiro do tráfico. "Ele está preso incomunicável há quase 30 anos e a polícia não o esquece", acrescentou o advogado do traficante.
O Legado e o Debate Público
A história de Marcinho VP transcende o âmbito do crime organizado e se insere em um debate mais amplo sobre a relação entre o sistema prisional brasileiro, as facções criminosas e a sociedade. De um lado, as autoridades afirmam que a prisão em regime federal é necessária para conter a influência de líderes do crime organizado. De outro, defensores dos direitos dos presos argumentam que as condições do sistema federal dificultam a ressocialização e o contato familiar.
"A penitenciária federal tira do preso o maior estímulo para a reintegração social que é a sua família. Em presídio federal, o preso não tem direito nenhum."
— Marcinho VP, sobre o sistema penitenciário federal
Paralelamente, a figura de Oruam divide opiniões. Para alguns, o rapper seria um poeta da realidade periférica, que canta o que viveu. Para outros, suas músicas e sua imagem pública glorificam o crime organizado e a "narcocultura". A polêmica motivou a criação de projetos de lei — conhecidos como "Lei Anti-Oruam" — para proibir a contratação de artistas que façam apologia ao crime.
Em fevereiro de 2026, enquanto estava foragido, Oruam lançou a música "Freestyle de um Foragido", cujo videoclipe inclui trechos de matérias jornalísticas sobre sua prisão. Em carta, Marcinho VP afirmou que o filho "errou e tem que pagar pelo que fez", mas acrescentou: "Vai sair de lá maior."
Conclusão: Uma História Sem Fim
Marcinho VP permanece como uma das figuras mais emblemáticas do crime organizado brasileiro. Preso há quase 30 anos, ele continua sendo apontado como líder do Comando Vermelho, enquanto sua família — especialmente o filho Oruam e a esposa Márcia Gama — enfrenta novas acusações e mandados de prisão. A denúncia do MPRJ, em maio de 2026, reforça a tese de que a influência de Marcinho VP vai muito além das grades do presídio federal de Campo Grande.
A trajetória do traficante, que começou aos 13 anos nas ruas de São João de Meriti e o levou ao comando do Complexo do Alemão, ilustra a persistência das facções criminosas no Rio de Janeiro e os desafios do Estado em desarticular suas estruturas. Ao mesmo tempo, a ascensão de Oruam como artista de sucesso — e a controvérsia em torno de sua imagem — colocam em questão os limites entre arte, apologia ao crime e a perpetuação de um ciclo de violência que parece não ter fim.
Enquanto o sistema judiciário avança com novas operações e denúncias, a história de Marcinho VP e sua família continua sendo escrita, página por página, entre as grades de um presídio federal e os holofotes dos palcos de música. A pergunta que permanece é: até quando a influência de um homem preso há três décadas continuará a moldar os destinos de uma das maiores facções criminosas do país?