Jairinho é condenado a 43 anos de prisão pela morte de Henry Borel; Monique Medeiros recebe perdão judicial e é libertada

Justiça • Rio de Janeiro

Ex-vereador é declarado culpado por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação. Mãe do menino tem acusação desclassificada e sai do tribunal em liberdade após julgamento histórico de 11 dias no Rio

Por Redação | Publicado em 08 de junho de 2026, às 21h16 | Atualizado em 08 de junho de 2026, às 21h16
Montagem com fotos de Dr. Jairinho e Monique Medeiros durante o julgamento do caso Henry Borel no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro
Foto: Montagem com imagens de Dr. Jairinho e Monique Medeiros durante o julgamento no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Fonte: O Globo / Agência Brasil

O ex-vereador Dr. Jairinho (Jairo Souza Santos Júnior) foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, ocorrida em março de 2021. A sentença foi proferida na madrugada desta quinta-feira (4), após 11 dias de julgamento — o mais longo da história do Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Já Monique Medeiros, mãe da criança, teve a acusação de homicídio doloso desclassificada, recebeu perdão judicial e foi colocada em liberdade.

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A sentença: 43 anos de prisão para Jairinho

O II Tribunal do Júri do Rio de Janeiro condenou o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão em regime inicialmente fechado. A pena foi composta por:

  • 35 anos, 6 meses e 20 dias pelo homicídio duplamente qualificado (meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima, com causa de aumento por vítima menor de 14 anos);
  • 6 anos e 3 meses pelo crime de tortura;
  • 2 anos pela coação no curso do processo.

Além da pena privativa de liberdade, a juíza Elizabeth Machado Louro determinou que Jairinho pague R$ 400 mil em indenização por danos morais ao pai de Henry, Leniel Borel. A magistrada descreveu o réu como possuidor de uma "personalidade insidiosa, perfeitamente apta ao engano e à dissimulação", destacando a extrema crueldade empregada contra uma criança de apenas 4 anos.

Os jurados consideraram Jairinho culpado pelos crimes de homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no curso do processo, após análise de sete laudos periciais, depoimentos de mais de 20 testemunhas e provas digitais apresentadas ao longo dos 11 dias de julgamento.

Foto policial de fichamento de Dr. Jairinho na entrada do sistema prisional do Rio de Janeiro em abril de 2021
Foto: Imagem de fichamento policial de Dr. Jairinho ao dar entrada no sistema prisional do Rio de Janeiro, em abril de 2021. Fonte: G1 / Divulgação

Perdão judicial e liberdade para Monique Medeiros

No caso de Monique Medeiros, os jurados concluíram que não houve intenção de matar a criança, desclassificando a acusação de homicídio doloso para homicídio culposo. Ela foi condenada a 1 ano e 4 meses de detenção pelo crime de tortura por omissão — por ter deixado de agir para proteger o filho das agressões.

No entanto, a juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial a Monique, fundamentando a decisão no entendimento de que ela já havia sofrido consequências suficientes. A magistrada destacou que a ré era primária, possuía bons antecedentes e foi submetida a um intenso julgamento público ao longo dos últimos cinco anos.

Em trecho marcante da sentença, a juíza afirmou que houve uma reação social "desproporcional e desmesurada" contra Monique e sustentou que parte das cobranças foi influenciada por questões de gênero. Segundo a magistrada, "fosse o pai e não a mãe, na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado". A juíza também citou o "massacre nas redes sociais" e as agressões sofridas por Monique no cárcere.

Como Monique permaneceu presa por período superior à pena aplicada, a punição foi considerada integralmente cumprida, e ela deixou o Fórum Central do Rio de Janeiro em liberdade.

Monique Medeiros sendo conduzida por policiais penais ao ser presa em abril de 2021
Foto: Monique Medeiros sendo conduzida por policiais penais durante sua prisão em abril de 2021. Fonte: O Globo / Alexandre Cassiano

Contexto: a morte de Henry Borel e os cinco anos de espera por justiça

O caso teve início na madrugada de 8 de março de 2021, quando Henry foi levado por Monique e Jairinho a um hospital na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, sem sinais vitais. Na época, o casal afirmou que a criança havia sofrido um acidente doméstico — uma queda da cama.

A versão começou a ser contestada após os exames realizados pelo Instituto Médico Legal (IML). Os peritos encontraram diversas lesões espalhadas pelo corpo da criança, incluindo ferimentos na cabeça, nos braços, no tórax e em órgãos internos. A causa da morte foi identificada como hemorragia interna provocada por laceração do fígado — lesões incompatíveis com uma queda acidental.

A investigação da Polícia Civil reuniu depoimentos de familiares, funcionários do condomínio, médicos, professores e pessoas próximas à família. Os relatos indicavam que Henry demonstrava medo de ficar sozinho com Jairinho. O pai da criança, Leniel Borel, afirmou que o filho já havia relatado situações de desconforto envolvendo o padrasto.

Em 8 de abril de 2021, um mês após a morte do menino, Jairinho e Monique foram presos preventivamente. Eles deram entrada na extinta Cadeia Pública Frederico Marques, em Benfica, antes de serem transferidos para o Complexo de Gericinó, em Bangu. Na época, houve denúncias de regalias ao casal dentro do sistema prisional, o que motivou a exoneração do diretor do presídio.

Foto do menino Henry Borel Medeiros, vítima de 4 anos no caso que chocou o Brasil
Foto: Henry Borel Medeiros, menino de 4 anos que morreu em março de 2021. Fonte: O Globo / Arquivo Pessoal

O julgamento: 11 dias, 20 testemunhas e provas digitais

O julgamento começou em 25 de maio de 2026 no Fórum Central do Rio de Janeiro e se tornou o mais longo da história do Tribunal do Júri do estado, com 11 dias de duração e 20 pessoas ouvidas. Foram apresentados sete laudos periciais, dados de contagem de passos que mostraram movimentação intensa de Jairinho (349 passos) na madrugada do crime, além de prints de mensagens apagadas.

A acusação, representada pelo Ministério Público e pelo assistente de acusação Cristiano Medina, classificou Jairinho como um "psicopata severo" e sustentou que ele submetia Henry a episódios de violência física sistemática. Monique, segundo a Promotoria, tinha conhecimento de parte das situações e se omitiu.

A defesa de Jairinho contestou as conclusões da investigação, argumentando que não existem provas de agressão direta e sugerindo que a morte poderia ter sido causada por queda acidental, lesão anterior ou erros nas manobras de reanimação hospitalar. Os advogados também sustentaram que o processo foi influenciado pela repercussão midiática do caso.

Já a defesa de Monique buscou demonstrar que ela vivia em um relacionamento marcado por violência doméstica, manipulação e controle psicológico por parte de Jairinho. Os advogados afirmaram que ela não participou das agressões, não tinha consciência da gravidade da situação e que foi dopada pelo réu na noite do crime.

Monique Medeiros emocionada durante o julgamento no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro
Foto: Monique Medeiros durante o julgamento no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro. Fonte: CNN Brasil / Paulo Carneiro

Declarações de autoridades e partes envolvidas

"Essa criança sentiu muita dor. Essa criança sofreu muito. Essa morte foi lenta, foi agônica."

Luiz Carlos Prestes, perito criminal

"Mataram o meu filho pela terceira vez."

Leniel Borel, pai de Henry, após a sentença que concedeu perdão a Monique

"Fosse o pai e não a mãe, na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado."

Juíza Elizabeth Machado Louro, ao fundamentar o perdão judicial a Monique

"Duvido que esse anjo do mal, esse príncipe das trevas, saia de dentro dele."

Cristiano Medina da Rocha, assistente de acusação, sobre Jairinho

O Ministério Público informou que irá recorrer da decisão que concedeu perdão judicial a Monique. Já a defesa de Jairinho também anunciou que irá recorrer da condenação. O advogado de Leniel Borel, Cristiano Medina, criticou a sentença: "Os jurados votaram de forma idêntica e a juíza, criando uma situação, fez a votação novamente. Isso que nos deixa indignados".

Montagem com Monique Medeiros, Henry Borel e Dr. Jairinho - principais personagens do caso
Foto: Montagem com os principais personagens do caso Henry Borel: Monique Medeiros, Henry Borel e Dr. Jairinho. Fonte: CNN Brasil

Possíveis desdobramentos e o legado do caso

A sentença não encerra definitivamente o caso. Tanto a defesa de Jairinho quanto o Ministério Público devem recorrer ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o que pode levar anos até um trânsito em julgado. Jairinho permanecerá preso enquanto aguarda o julgamento dos recursos.

A repercussão nacional da morte de Henry levou à criação da Lei Henry Borel, sancionada em 2022, que estabeleceu mecanismos de proteção para crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica e familiar, ampliando medidas de prevenção e combate a esse tipo de crime.

O caso também reacendeu o debate sobre a violência doméstica, o papel da mãe na proteção infantil e a discriminação de gênero no sistema judiciário brasileiro. A sentença da juíza Elizabeth Machado Louro, em particular, gerou polarização nas redes sociais entre aqueles que consideram o perdão judicial uma decisão justa e aqueles que defendem que Monique deveria ter sido punida de forma mais severa.

Conclusão

Após cinco anos de espera, o julgamento do caso Henry Borel chegou a um desfecho que divide opiniões: Jairinho foi condenado a quase 44 anos de prisão por crimes que chocaram o país, enquanto Monique Medeiros foi libertada após receber perdão judicial. A sentença, proferida na madrugada de 4 de junho de 2026, encerra um capítulo doloroso, mas deixa questões em aberto sobre justiça, gênero e proteção infantil no Brasil.

Para o pai de Henry, Leniel Borel, a luta continua. "Nós vamos continuar lutando para anular essa absolvição da Monique", afirmou. Enquanto isso, o nome de Henry Borel Medeiros permanece como símbolo da luta contra a violência infantil no país.

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Fontes:

  • G1 Globo — "Júri condena Jairinho por homicídio e tortura" (04/06/2026)
  • O Globo — "Da acusação ao perdão: as frases que marcaram o julgamento do caso Henry" (05/06/2026)
  • CNN Brasil — "Henry Borel: Jairinho é condenado a 43 anos e Monique recebe perdão" (04/06/2026)
  • Folha de S.Paulo — "Henry Borel: entenda como foi o julgamento em 10 pontos" (04/06/2026)
  • Agência Brasil — "Caso Henry Borel: Justiça condena Jairinho e concede perdão a Monique" (04/06/2026)
  • Brasil de Fato — "Jairinho é condenado a 43 anos de prisão pela morte do menino Henry Borel" (04/06/2026)
  • G1 Globo — "Fotos mostram Dr. Jairinho e Monique ao darem entrada na prisão" (16/04/2021)

As imagens utilizadas nesta matéria são de fontes jornalísticas oficiais e estão disponíveis na internet para fins de informação pública.

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