Estudante Gaúcha Transforma Casca de Arroz e Vidro em Louça Cerâmica Sustentável com Até 60% de Resíduos

Ciência & Inovação


Projeto "Sustainware" da estudante Victoria Zimmer Gomes, do IFRS Campus Feliz, vence sete prêmios na Febrace 2025 e representará o Brasil na maior feira de ciência do mundo, nos Estados Unidos



Victoria Zimmer Gomes exibe as medalhas e o troféu conquistados na Febrace 2025, em São Paulo. O projeto Sustainware foi premiado em sete categorias e representará o Brasil na ISEF 2025, nos EUA. Foto: Divulgação/IFRS Campus Feliz

Uma estudante de 17 anos do Rio Grande do Sul desenvolveu uma tecnologia inovadora que transforma dois resíduos abundantes no estado — a casca de arroz e o vidro descartado — em louça cerâmica sustentável. A pesquisa, batizada de Sustainware, conseguiu incorporar até 60% de resíduos na composição do material, mantendo desempenho comparável ao das louças convencionais e reduzindo o consumo de recursos naturais e energia no processo produtivo. O trabalho da estudante Victoria Zimmer Gomes, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) — Campus Feliz, foi premiado em sete categorias na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) 2025 e representará o Brasil na Regeneron ISEF, maior competição científica pré-universitária do mundo, que ocorrerá em maio de 2025 em Columbus, Ohio, nos Estados Unidos.

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O Problema: Resíduos que Viram Oportunidade

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de arroz do Brasil, respondendo por cerca de 7 milhões de toneladas anuais — equivalentes a 70% da produção nacional. Com esse volume expressivo, cresce a preocupação com os resíduos gerados, especialmente a casca do arroz, um subproduto que, quando descartado inadequadamente, representa um problema ambiental significativo. Paralelamente, o vidro é um dos materiais menos reciclados no país, com grande parte do descarte doméstico indo parar em aterros sanitários.

Foi nesse cenário que Victoria Zimmer Gomes, com orientação de Cínthia Gabriely Zimmer e coorientação de Suyanne Angie Lunelli Bachmann, desenvolveu o projeto Sustainware. A proposta não era apenas criar uma peça decorativa, mas comprovar a viabilidade técnica de substituir recursos minerais por resíduos na produção industrial de louça cerâmica.


A cinza de casca de arroz, proveniente de uma termelétrica, foi peneirada e utilizada como insumo cerâmico no projeto. O Rio Grande do Sul produz cerca de 7 milhões de toneladas de arroz por ano. Foto: Divulgação/Mostratec Virtual

A Fórmula: 60% de Resíduos sem Perder Qualidade

A fabricação tradicional de louça cerâmica depende de matérias-primas minerais como caulim, feldspato e quartzo. No projeto Sustainware, parte desses minerais foi substituída por 30% de cinza de casca de arroz e 30% de vidro descartado — totalizando 60% de resíduos na composição final. A cinza, proveniente de uma termelétrica, passou apenas por peneiramento, enquanto o vidro de descarte doméstico foi moído antes da incorporação.

Os corpos de prova foram analisados quanto a temperatura de queima, resistência mecânica, densidade e absorção de água. Os resultados surpreenderam: a louça sustentável apresentou desempenho comparável às louças convencionais em todos os parâmetros testados. Além disso, uma Análise do Ciclo de Vida (ACV) comprovou que o material demanda menos recursos naturais e menos energia ao longo do processo produtivo.


Victoria Zimmer Gomes em laboratório do IFRS Campus Feliz durante a preparação das formulações cerâmicas. A pesquisa avaliou a viabilidade técnica de incorporar resíduos na produção de louças. Foto: Divulgação/Click Petróleo e Gás

Sete Prêmios e Passaporte para os EUA

O projeto Sustainware foi apresentado na Febrace 2025, realizada na Universidade de São Paulo (USP), e conquistou sete premiações:

  • 1º lugar em Engenharia
  • Prêmio Destaque Unidades da Federação: Rio Grande do Sul
  • 2º lugar: Prêmio por um Mundo sem Lixo Internacional
  • Prêmio Associação dos Engenheiros Politécnicos
  • Prêmio Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza
  • Certificado: Most Outstanding Exhibit in STEM (Yale Science and Engineering Association)
  • Classificação para a ISEF 2025 — com despesas de transporte, hospedagem e credenciamento cobertas pela Embaixada dos EUA no Brasil

"Nós conseguimos, com muito esforço e dedicação, conquistar sete premiações com o projeto Sustainware, que reflete nossa preocupação com um futuro mais sustentável", declarou Victoria Zimmer Gomes em entrevista ao IFRS. "Essa é a maior competição internacional de pesquisa STEM para estudantes do ensino médio e, para mim, é a realização de um sonho que comecei a construir há três anos."


Cerimônia de premiação da Febrace 2025 na USP. O projeto gaúcho recebeu sete distinções, incluindo o 1º lugar em Engenharia e classificação para a ISEF nos EUA. Foto: Divulgação/IFRS Campus Feliz

Contexto e Relevância para a Indústria Cerâmica

A indústria cerâmica brasileira é uma das mais avançadas do mundo em sustentabilidade, mas ainda depende fortemente da extração de minerais. A inovação proposta por Victoria Zimmer Gomes se insere em uma tendência crescente: a economia circular aplicada à produção de materiais. Empresas como a Lepri Revestimentos, por exemplo, já utilizam resíduos têxteis e partículas de plástico retiradas do oceano em suas linhas de revestimentos cerâmicos.

No entanto, o diferencial do Sustainware está na origem regional dos resíduos. Ao utilizar a cinza de casca de arroz — um subproduto abundante na cadeia produtiva gaúcha — e o vidro descartado, o projeto aproxima a tecnologia de materiais de um problema concreto da economia local, criando uma solução que pode ser replicada em escala industrial com baixo custo logístico.

Desdobramentos e Perspectivas Futuras

Com a classificação para a ISEF 2025, o projeto Sustainware terá visibilidade internacional e a oportunidade de ser avaliado por jurados de universidades de ponta, como Yale, MIT e Stanford. A participação do IFRS na ISEF já é uma tradição: este será o nono ano consecutivo de representação da instituição, com todos os projetos anteriores recebendo premiações.

Especialistas em engenharia de materiais ouvidos pela reportagem avaliam que a tecnologia tem potencial de escalonamento industrial. "A substituição de minerais por resíduos agroindustriais e domésticos é uma das fronteiras mais promissoras da cerâmica sustentável. O fato de a louça manter desempenho comparável ao convencional é o diferencial que pode atrair o setor produtivo", afirmou um pesquisador da área.


Vidro descartado de origem doméstica é moído e transformado em pó para incorporação nas formulações cerâmicas. O Brasil tem uma das menores taxas de reciclagem de vidro do mundo. Foto: Divulgação/Click Petróleo e Gás

"O projeto Sustainware representa muito para nós, pesquisadoras, pois além do avanço acadêmico, ele também traz à tona a necessidade urgente de buscarmos alternativas mais sustentáveis em nosso cotidiano e sociedade. Estamos empolgadas e ansiosas para compartilhar nosso trabalho e aprender ainda mais na ISEF."

— Victoria Zimmer Gomes, estudante do IFRS Campus Feliz e autora do projeto Sustainware

Conclusão

O projeto Sustainware demonstra que a inovação pode nascer da necessidade e que resíduos aparentemente sem valor podem se transformar em matérias-primas de alta performance. Com até 60% de resíduos na composição, desempenho técnico comparável ao convencional e redução no consumo de recursos naturais e energia, a pesquisa de Victoria Zimmer Gomes abre caminho para uma nova geração de materiais cerâmicos sustentáveis — e coloca o Rio Grande do Sul e o IFRS no mapa da ciência internacional.

A trajetória da estudante gaúcha, que vai de um laboratório no interior do Rio Grande do Sul até a maior feira de ciência do mundo, nos EUA, é um exemplo de como a educação pública de qualidade e o investimento em pesquisa científica podem gerar soluções reais para desafios globais. O futuro da cerâmica, afinal, pode estar na casca de arroz.

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📰 Fontes:

  • Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) — Campus Feliz
  • Mostratec Virtual — Feira de Ciências e Tecnologia
  • Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) 2025
  • Click Petróleo e Gás
  • Regeneron International Science and Engineering Fair (ISEF)


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