Las Vegas: a capital mundial dos cassinos e a cidade que nunca dorme


De um ponto de parada ferroviário no meio do deserto de Mojave a um complexo de mais de 200 cassinos, 150 mil quartos de hotel e 40 milhões de visitantes por ano, Las Vegas construiu em pouco mais de um século a maior concentração de jogos legalizados do planeta. Conheça a história, os personagens e os números por trás da cidade que transformou o entretenimento em indústria.



Existe um lugar no sul do estado de Nevada, nos Estados Unidos, onde os relógios praticamente não existem, as janelas são raras nos salões de jogo e as luzes de néon podem ser vistas do espaço. Las Vegas é, por larga margem, a cidade com o maior número de cassinos legalizados do mundo: a região metropolitana reúne mais de 200 estabelecimentos licenciados, dezenas deles com milhares de máquinas caça-níqueis e centenas de mesas cada um. Em 2024, a cidade recebeu cerca de 41,7 milhões de visitantes, e os cassinos de todo o estado faturaram mais de 15 bilhões de dólares apenas com apostas, sem contar hotéis, shows, restaurantes e convenções. O que poucos sabem é que esse império surgiu de uma combinação improvável de uma fonte de água no deserto, uma crise econômica mundial, uma represa gigantesca e uma lei aprovada em 1931 para salvar um estado da falência.

Antes dos cassinos: um oásis no deserto de Mojave

O nome da cidade vem do espanhol e significa "as campinas" ou "os prados". Foi assim que o explorador mexicano Rafael Rivera, em 1829, batizou um vale onde fontes subterrâneas criavam uma faixa verde no meio do deserto de Mojave. O local tornou-se parada obrigatória na Old Spanish Trail, rota comercial que ligava Santa Fé, no Novo México, a Los Angeles, na Califórnia. Viajantes e caravanas paravam ali para beber água e descansar os animais antes de encarar o trecho mais árido da travessia.

Em 1855, missionários mórmons liderados por Brigham Young ergueram um forte de adobe na região, com o objetivo de converter os nativos paiutes e estabelecer um ponto de apoio entre Salt Lake City e o sul da Califórnia. O assentamento durou apenas dois anos, mas as ruínas do Old Las Vegas Mormon Fort ainda existem e constituem o edifício mais antigo de Nevada, hoje transformado em parque histórico estadual.


O Forte Mórmon, de 1855, é a construção mais antiga de Nevada e marca o primeiro assentamento no vale. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

1905: a cidade nasce de um leilão de terras

O verdadeiro ato de fundação de Las Vegas ocorreu em 15 de maio de 1905, quando a San Pedro, Los Angeles and Salt Lake Railroad leiloou 110 acres de terreno ao lado de sua recém-construída estação. Em um único dia, cerca de 1.200 lotes foram vendidos para comerciantes, especuladores e trabalhadores que viam no ponto de reabastecimento da ferrovia uma oportunidade de negócios. Seis anos depois, em 1911, Las Vegas foi oficialmente incorporada como cidade. Sua população não chegava a mil habitantes.

Durante as duas décadas seguintes, o lugar permaneceu uma pequena cidade ferroviária de clima inóspito, com verões acima de 40 graus e economia dependente da manutenção de locomotivas. Nada indicava o destino que estava por vir.

1931: o ano que mudou tudo

Dois acontecimentos quase simultâneos transformaram Las Vegas para sempre. O primeiro foi a decisão do governo federal americano de construir, a cerca de 50 quilômetros da cidade, a maior represa do mundo até então: a Hoover Dam, inicialmente chamada Boulder Dam. As obras, iniciadas em 1931 e concluídas em 1936, trouxeram milhares de operários para a região em plena Grande Depressão. Homens solteiros, longe de casa e com salário no bolso, buscavam diversão nos fins de semana, e Las Vegas estava logo ali.


A Hoover Dam, concluída em 1936, trouxe milhares de operários para a região e impulsionou os primeiros cassinos. Foto: Wikimedia Commons (domínio público).

O segundo acontecimento foi político. Com a economia estadual arrasada pela crise e pelo esgotamento das minas de prata, o legislativo de Nevada aprovou, em 19 de março de 1931, a lei que legalizava o jogo de azar em todo o estado. A medida, defendida pelo deputado Phil Tobin, um fazendeiro que nem sequer jogava, tinha um objetivo pragmático: arrecadar impostos e atrair visitantes. Na mesma sessão legislativa, Nevada reduziu para seis semanas o período de residência exigido para o divórcio, o que transformou Reno e Las Vegas em destinos para casais de todo o país que queriam se separar rapidamente.

Os primeiros cassinos licenciados surgiram na Fremont Street, no centro da cidade, em prédios modestos que misturavam bar, salão de jogo e hotel. Entre os pioneiros estavam o Northern Club, primeiro a receber licença, o Boulder Club e, em 1941, o El Cortez, que funciona até hoje e é o hotel-cassino mais antigo da cidade em operação contínua no mesmo local.

O nascimento da Strip

A famosa Las Vegas Strip, trecho de quase sete quilômetros da Las Vegas Boulevard, tecnicamente não fica dentro dos limites da cidade de Las Vegas, mas nas áreas não incorporadas de Paradise e Winchester, no condado de Clark. Essa curiosidade administrativa tem origem histórica: os primeiros empreendedores escolheram terrenos fora da cidade justamente para fugir dos impostos municipais e das regras mais rígidas do centro.

El Rancho Vegas e o modelo do resort

Em abril de 1941, o hoteleiro californiano Thomas Hull inaugurou o El Rancho Vegas, considerado o primeiro resort da Strip. Com estilo de fazenda do Velho Oeste, piscina, restaurante, shows e um cassino integrado, o empreendimento estabeleceu o modelo que seria copiado por todos os concorrentes: o hóspede não precisaria sair do complexo para nada. Em 1942, o Hotel Last Frontier seguiu a mesma fórmula alguns quarteirões adiante.


A Fremont Street nos anos 1940: o centro histórico concentrava os primeiros cassinos legalizados. Foto: Wikimedia Commons (domínio público).

Bugsy Siegel e o Flamingo

Nenhum personagem é tão associado ao mito de Las Vegas quanto Benjamin "Bugsy" Siegel, gângster nova-iorquino ligado ao sindicato do crime liderado por Meyer Lansky e Lucky Luciano. Siegel assumiu o controle de um projeto iniciado pelo empresário Billy Wilkerson e transformou-o no Flamingo, inaugurado em 26 de dezembro de 1946. Com decoração sofisticada inspirada em Miami e Hollywood, o hotel custou cerca de 6 milhões de dólares, valor astronômico para a época e várias vezes superior ao orçamento original.

A abertura foi um fracasso inicial: o hotel ainda estava inacabado, uma tempestade impediu a chegada de celebridades e o cassino fechou após poucas semanas no prejuízo. Reaberto em março de 1947, começou a dar lucro, mas tarde demais para o seu idealizador. Em 20 de junho de 1947, Siegel foi assassinado a tiros na casa de sua namorada em Beverly Hills, em um crime nunca esclarecido. O Flamingo, porém, sobreviveu e tornou-se o cassino mais antigo ainda em funcionamento na Strip, embora nenhuma das construções originais permaneça de pé.

Os anos dourados: máfia, Rat Pack e bombas atômicas

As décadas de 1950 e 1960 consolidaram Las Vegas como destino de entretenimento adulto e, ao mesmo tempo, como território de influência do crime organizado. Famílias mafiosas de Chicago, Kansas City, Cleveland e Nova York financiaram, direta ou indiretamente, boa parte dos novos cassinos, utilizando fundos de pensão de sindicatos como o dos caminhoneiros (Teamsters) e desviando parte da receita antes que fosse contabilizada, prática conhecida como "skimming".

Nesse período foram inaugurados ícones como o Desert Inn (1950), o Sands (1952), o Sahara (1952), o Riviera (1955), o Dunes (1955), o Tropicana (1957) e o Stardust (1958), este último, na época, o maior hotel do mundo. O Estado reagiu à infiltração criminosa criando o Nevada Gaming Control Board em 1955 e a Nevada Gaming Commission em 1959, além da famosa "Lista Negra" (Black Book), que proíbe a entrada de pessoas ligadas ao crime em qualquer cassino do estado.


O Sands Hotel, inaugurado em 1952, foi o palco do Rat Pack e símbolo da era dourada. Foto: Wikimedia Commons (domínio público).

O Rat Pack e a era dos grandes shows

Em janeiro de 1960, enquanto filmavam Onze Homens e um Segredo (Ocean's Eleven), Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop apresentaram-se juntos no Copa Room do Sands. As apresentações do chamado Rat Pack entraram para a história como o auge do glamour de Las Vegas e definiram o padrão dos shows de cassino: artistas de primeira linha, humor improvisado e um público que incluía estrelas de Hollywood e políticos de Washington.

Outro divisor de águas foi a estreia de Elvis Presley no International Hotel, em julho de 1969. O cantor fez 636 apresentações consecutivas com lotação esgotada ao longo de sete anos e popularizou o conceito de "residência", modelo em que um artista se fixa em um teatro por meses ou anos. Décadas depois, Celine Dion, Elton John, Britney Spears, Lady Gaga, Adele e U2 seguiriam o mesmo caminho.

Turismo atômico

Um dos capítulos mais inusitados da história local começou em 1951, quando o governo americano passou a realizar testes nucleares no Nevada Test Site, a cerca de 100 quilômetros ao norte da cidade. Em vez de afastar visitantes, as explosões viraram atração: hotéis promoviam festas na cobertura para assistir aos cogumelos atômicos ao amanhecer, bares serviam "coquetéis atômicos" e a Câmara de Comércio distribuía calendários com as datas das detonações. Entre 1951 e 1962, foram realizados cerca de 100 testes atmosféricos visíveis da cidade. O National Atomic Testing Museum, aberto em 2005, preserva essa memória.

Howard Hughes e a corporativização dos cassinos

Na noite de Ação de Graças de 1966, o bilionário recluso Howard Hughes chegou a Las Vegas de trem e instalou-se na cobertura do Desert Inn. Quando a gerência pediu que desocupasse as suítes para dar lugar a apostadores de alto nível, Hughes simplesmente comprou o hotel, por 13 milhões de dólares, em março de 1967. Nos anos seguintes, sem jamais sair de seu quarto, adquiriu o Sands, o Frontier, o Castaways, o Silver Slipper e o Landmark, além de um aeroporto e uma emissora de televisão.

A chegada de Hughes teve um efeito simbólico e prático. Simbólico porque sua imagem de empresário respeitável ajudou a limpar a reputação da cidade, até então vista como território do crime organizado. Prático porque pressionou o legislativo estadual a aprovar, em 1967 e 1969, as leis conhecidas como Corporate Gaming Acts, que permitiram a empresas de capital aberto operar cassinos. Até então, cada acionista individual precisava ser investigado e licenciado, o que inviabilizava grandes corporações. A mudança abriu as portas para redes hoteleiras como Hilton e MGM e, gradualmente, afastou o dinheiro da máfia.

Fachada do Caesars Palace em Las Vegas com fontes e colunas romanas
O Caesars Palace, inaugurado em 1966, inaugurou a era dos cassinos temáticos de grande porte. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

Caesars Palace e o nascimento do cassino temático

Em agosto de 1966, o empresário Jay Sarno abriu o Caesars Palace, o primeiro grande resort da Strip construído em torno de um tema completo. Colunas romanas, estátuas de mármore, funcionários vestidos de centuriões e fontes monumentais criavam uma experiência imersiva que ia além do jogo. O conceito foi tão bem-sucedido que Sarno repetiu a fórmula em 1968 com o Circus Circus, voltado ao público familiar, com trapezistas se apresentando acima do salão de apostas.

Tragédia, declínio e a crise dos anos 1980

A década de 1980 começou com a pior tragédia da história da cidade. Em 21 de novembro de 1980, um incêndio no MGM Grand (atual Bally's, hoje Horseshoe) matou 85 pessoas e feriu mais de 650, a maioria por inalação de fumaça nos andares superiores. Três meses depois, um novo incêndio no Las Vegas Hilton deixou oito mortos. Os episódios levaram Nevada a adotar algumas das legislações de segurança contra incêndio mais rigorosas dos Estados Unidos, com sprinklers obrigatórios em todos os prédios altos.

Ao mesmo tempo, a cidade enfrentava concorrência inédita. Em 1978, Atlantic City, em Nova Jersey, legalizou os cassinos e passou a atrair o público da Costa Leste. Las Vegas, com hotéis envelhecidos e imagem associada à máfia, parecia ter perdido o brilho. As investigações federais sobre o "skimming" culminaram em condenações de chefes mafiosos em meados dos anos 1980, episódios que inspiraram o filme Cassino, de Martin Scorsese, lançado em 1995.

Letreiro Welcome to Fabulous Las Vegas Nevada criado em 1959
O letreiro "Welcome to Fabulous Las Vegas", criado por Betty Willis em 1959, é o cartão-postal da cidade. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

Steve Wynn e a revolução dos megarresorts

A virada veio em 22 de novembro de 1989, com a inauguração do The Mirage, projeto do empresário Steve Wynn. Com custo de 630 milhões de dólares, o resort era o mais caro já construído até então e trazia um vulcão artificial que entrava em erupção a cada 15 minutos, um aquário de tubarões atrás da recepção, uma floresta tropical no átrio e o show dos ilusionistas Siegfried & Roy com tigres brancos. Analistas previam que o Mirage precisaria faturar 1 milhão de dólares por dia só para pagar as dívidas; ele faturou mais.

O sucesso do Mirage desencadeou a maior onda de construção da história da cidade. Em pouco mais de uma década foram inaugurados:

  • Excalibur (1990), um castelo medieval com mais de 4 mil quartos;
  • Luxor (1993), uma pirâmide negra de 30 andares com o feixe de luz mais potente do mundo no topo;
  • MGM Grand (1993), por anos o maior hotel do planeta, com 5.044 quartos;
  • Treasure Island (1993), com batalhas de navios piratas na entrada;
  • Stratosphere (1996), com a torre de observação mais alta dos Estados Unidos;
  • New York-New York (1997), com réplicas da Estátua da Liberdade e do skyline de Manhattan;
  • Bellagio (1998), inspirado no lago de Como, com suas fontes dançantes e um custo de 1,6 bilhão de dólares;
  • Mandalay Bay (1999), com praia artificial de ondas;
  • The Venetian (1999), com canais, gôndolas e réplica da Praça São Marcos;
  • Paris Las Vegas (1999), com uma Torre Eiffel em escala de 1:2.

As fontes do Bellagio, inauguradas em 1998, tornaram-se uma das atrações gratuitas mais visitadas do mundo. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

A diversificação além do jogo

A era dos megarresorts trouxe uma mudança profunda no modelo de negócios. Nos anos 1980, cerca de 60% da receita dos grandes hotéis da Strip vinha do cassino. Hoje, essa proporção caiu para aproximadamente 35%, enquanto hospedagem, gastronomia, shows, boates, compras e convenções respondem pela maior fatia. Restaurantes de chefs premiados, como Joël Robuchon, Guy Savoy, Gordon Ramsay e Wolfgang Puck, transformaram a cidade em um dos principais polos gastronômicos dos Estados Unidos. O Cirque du Soleil, por sua vez, chegou a manter simultaneamente sete espetáculos fixos na Strip.

No centro histórico, a Fremont Street Experience, inaugurada em 1995, cobriu cinco quarteirões com uma abóbada de telas de LED e revitalizou a região dos cassinos pioneiros, como o Golden Nugget, o Binion's e o Four Queens.

Las Vegas em números: por que é a capital dos cassinos

A supremacia de Las Vegas em quantidade de cassinos é inquestionável, ainda que, em faturamento por apostas, Macau, região administrativa especial da China, tenha ultrapassado a cidade americana a partir de 2006, com receitas que superaram 28 bilhões de dólares em 2024. A diferença é que Macau concentra o volume em cerca de 40 cassinos voltados a apostadores de altíssimo valor, enquanto Las Vegas distribui sua força em centenas de estabelecimentos, de resorts gigantescos a pequenos salões de bairro, atendendo todos os perfis de público.

Dados essenciais

  • Mais de 200 cassinos licenciados na região metropolitana, cerca de 30 deles grandes resorts na Strip;
  • aproximadamente 150 mil quartos de hotel, a maior oferta de qualquer cidade do mundo; 15 dos 25 maiores hotéis do planeta ficam em Las Vegas;
  • cerca de 41,7 milhões de visitantes em 2024;
  • receita de jogos acima de 15 bilhões de dólares em Nevada, dos quais cerca de 8,8 bilhões apenas na Strip;
  • mais de 130 mil máquinas caça-níqueis espalhadas por cassinos, bares, supermercados, postos de gasolina e até no aeroporto;
  • cerca de 6 milhões de participantes de convenções por ano, com eventos como a CES, a maior feira de tecnologia do mundo;
  • o Harry Reid International Airport, rebatizado em 2021, movimenta mais de 57 milhões de passageiros anuais.

As máquinas caça-níqueis respondem pela maior parte da receita de jogos dos cassinos de Nevada. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

Como funciona a regulação

O sistema regulatório de Nevada é considerado modelo mundial e serviu de base para legislações em dezenas de países. O Gaming Control Board investiga, fiscaliza e audita os operadores, enquanto a Gaming Commission decide sobre licenças e punições. Cada funcionário que lida com dinheiro ou fichas precisa de um registro individual; cada máquina passa por testes de laboratório; e as empresas pagam impostos escalonados que chegam a 6,75% da receita bruta de jogos, além de taxas por mesa e por equipamento. Em comparação com outros estados americanos, a alíquota de Nevada é baixa, o que é apontado como um dos fatores que mantiveram a atratividade do investimento.

O século XXI: crises, reinvenção e a chegada dos esportes

A trajetória recente de Las Vegas foi marcada por choques sucessivos e por uma notável capacidade de recuperação. A crise financeira de 2008 atingiu a cidade com força: o desemprego ultrapassou 14%, milhares de imóveis foram executados e projetos bilionários ficaram inacabados, como o Fontainebleau, cuja torre azul permaneceu vazia por 14 anos. Mesmo assim, em 2009 a MGM inaugurou o CityCenter, complexo de 8,5 bilhões de dólares que incluía o hotel Aria, considerado o maior empreendimento privado da história dos Estados Unidos.

Em 1º de outubro de 2017, a cidade viveu seu dia mais sombrio: um atirador posicionado no 32º andar do Mandalay Bay abriu fogo contra um festival de música country, matando 60 pessoas e ferindo centenas, no ataque com mais vítimas fatais da história recente dos Estados Unidos. O slogan #VegasStrong tornou-se símbolo da resposta da comunidade.

Três anos depois, a pandemia de covid-19 fez o impensável: em 17 de março de 2020, todos os cassinos de Nevada fecharam as portas por determinação do governador, pela primeira vez na história desde a legalização em 1931. A Strip permaneceu às escuras por 78 dias, até 4 de junho de 2020. A recuperação, no entanto, foi rápida, e em 2022 a receita de jogos já batia recordes históricos.


O Allegiant Stadium, inaugurado em 2020, sediou o Super Bowl LVIII em 2024 e simboliza a nova vocação esportiva da cidade. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

De cidade sem times a capital do esporte

Durante décadas, as grandes ligas esportivas americanas evitaram Las Vegas por receio de associação com apostas. Esse tabu caiu de forma espetacular. Em 2017, o Vegas Golden Knights estreou na NHL, liga de hóquei no gelo, e em 2023 conquistou a Stanley Cup. Em 2020, o Raiders, time de futebol americano da NFL, mudou-se de Oakland para o recém-construído Allegiant Stadium, de 1,9 bilhão de dólares. Em fevereiro de 2024, a cidade sediou o Super Bowl LVIII. A Fórmula 1 voltou em novembro de 2023 com um Grande Prêmio noturno cujo traçado percorre a própria Strip. Em 2024, a Major League Baseball aprovou a transferência do Oakland Athletics para a cidade, com estádio previsto para 2028.

As novas fronteiras do entretenimento

A última leva de empreendimentos mostra que a cidade continua a se reinventar. O Resorts World, aberto em 2021 ao custo de 4,3 bilhões de dólares, foi o primeiro grande resort novo na Strip em uma década. Em setembro de 2023, o Sphere, uma esfera de 112 metros de altura revestida por 1,2 milhão de LEDs externos e com a maior tela interna do mundo, estreou com uma residência do U2 e redefiniu o conceito de arena de shows. Em dezembro de 2023, o Fontainebleau finalmente abriu as portas, 16 anos após o início das obras. Já em julho de 2024, o Mirage, que havia inaugurado a era dos megarresorts, fechou para ser transformado no Hard Rock Las Vegas, com uma torre em formato de guitarra prevista para 2027.


O Sphere, inaugurado em 2023, tem a maior tela de LED do mundo e representa a nova geração de atrações da cidade. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

Curiosidades que explicam a cidade

  • A maioria dos cassinos não tem relógios nem janelas nos salões de jogo, estratégia para que o apostador perca a noção do tempo;
  • o Welcome to Fabulous Las Vegas, letreiro desenhado por Betty Willis em 1959, nunca foi registrado como marca: a designer o considerou um presente à cidade, e por isso ele pode ser reproduzido livremente;
  • a Strip é um dos poucos lugares dos Estados Unidos onde é permitido consumir bebida alcoólica em via pública;
  • o estado de Nevada não cobra imposto de renda estadual, em grande parte graças à arrecadação dos cassinos;
  • o condado de Clark emite mais de 70 mil licenças de casamento por ano, e a cidade abriga dezenas de capelas que realizam cerimônias em minutos, incluindo as famosas com sósias de Elvis;
  • o Neon Museum, aberto em 2012, preserva mais de 250 letreiros antigos de cassinos demolidos, em um "cemitério de néon" a céu aberto;
  • o slogan "What happens in Vegas, stays in Vegas", criado em 2003 pela agência R&R Partners, é considerado uma das campanhas publicitárias mais bem-sucedidas da história do turismo.

O Neon Museum guarda letreiros de cassinos históricos já demolidos, como o Stardust e o Sahara. Foto: Wikimedia Commons (licença livre).

Las Vegas e o Brasil

Os brasileiros estão entre os visitantes latino-americanos mais frequentes da cidade, atraídos pelos shows, pelas compras e, nos últimos anos, pelos torneios de pôquer: a legião de jogadores brasileiros que disputa anualmente o World Series of Poker transformou o Brasil em uma das nacionalidades mais representadas no evento. Lutadores brasileiros de MMA também fizeram da cidade, sede do UFC, uma segunda casa.

Las Vegas serve ainda de referência no debate sobre a legalização dos cassinos no Brasil. O Projeto de Lei 2.234/2022, que prevê a instalação de cassinos integrados a resorts turísticos, tramita no Congresso Nacional e cita o modelo regulatório de Nevada como inspiração para regras de licenciamento, fiscalização e tributação. Defensores apontam o potencial de geração de empregos e turismo; críticos alertam para os riscos de lavagem de dinheiro e de dependência do jogo, questões que Las Vegas enfrentou ao longo de toda a sua história.

Conclusão

Em pouco mais de um século, Las Vegas saiu de uma estação ferroviária no deserto para se tornar a capital mundial dos cassinos, com mais de 200 estabelecimentos legalizados, a maior concentração de quartos de hotel do planeta e dezenas de milhões de visitantes anuais. Sua história é feita de apostas no sentido literal e no figurado: a aposta de Nevada em legalizar o jogo em 1931, a de Bugsy Siegel no luxo do Flamingo, a de Howard Hughes na respeitabilidade corporativa, a de Steve Wynn nos megarresorts e, mais recentemente, a dos grandes esportes e do entretenimento tecnológico. A cada crise, a cidade reinventou-se, provando que o seu verdadeiro produto nunca foi apenas o jogo, mas a experiência de um lugar onde, por algumas noites, tudo parece possível.

Perguntas Frequentes

Las Vegas é a cidade com mais cassinos do mundo?

Sim. A região metropolitana reúne mais de 200 cassinos licenciados, cerca de 30 deles grandes resorts na Strip, a maior concentração de casas de jogo legalizadas do planeta.

Quando o jogo foi legalizado em Las Vegas?

Em 19 de março de 1931, quando o estado de Nevada aprovou a lei que liberou os jogos de azar em todo o território estadual, em meio à Grande Depressão.

Qual é o cassino mais antigo da cidade?

O Golden Gate, na Fremont Street, funciona desde 1906 como hotel e abriga cassino desde 1931. Na Strip, o mais antigo em operação é o Flamingo, de 1946, embora suas construções originais já tenham sido demolidas.

Las Vegas fatura mais que Macau?

Não. Desde 2006, Macau supera Las Vegas em receita de apostas, com mais de 28 bilhões de dólares em 2024. Las Vegas, porém, tem muito mais cassinos, hotéis e visitantes, e sua receita total é mais diversificada.

Por que a Strip não fica dentro da cidade de Las Vegas?

Os primeiros resorts foram construídos fora dos limites municipais, em áreas não incorporadas do condado de Clark, para pagar menos impostos e escapar de regras mais rígidas. A situação administrativa permanece até hoje.

Quantas pessoas visitam Las Vegas por ano?

Cerca de 41,7 milhões de visitantes em 2024, segundo a autoridade de turismo local, além de aproximadamente 6 milhões de participantes de convenções e feiras.

O que foi o Corporate Gaming Act?

Um conjunto de leis aprovadas em 1967 e 1969 que permitiu a empresas de capital aberto operar cassinos em Nevada, abrindo caminho para grandes corporações e reduzindo a influência do crime organizado.

Las Vegas tem times esportivos profissionais?

Sim. O Vegas Golden Knights (NHL) estreou em 2017, o Raiders (NFL) chegou em 2020 e o Athletics (MLB) tem mudança aprovada para 2028. A cidade também sediou o Super Bowl em 2024 e recebe uma etapa da Fórmula 1 desde 2023.


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